Descubra o poder do riso
Apesar de ser um mecanismo aparentemente simples, a risada guarda um complexo sistema que envolve o cérebro e afeta todo o organismo. Ledo engano achar que rir é um comportamento bobo e, muito menos, banal
POR SUCENA SHKRADA RESK
POR SUCENA SHKRADA RESK
Está mais do que provado que a risada é um elemento importante de combate ao estresse, ligado diretamente ao nosso sistema nervoso central. É considerada uma válvula de escape às pressões do dia-a-dia e, inclusive, com função positiva no auxílio à recuperação de pacientes internados em hospitais. O bom humor, segundo especialistas, reduz a pressão sanguínea e o nível de hormônios, que afetam nosso sistema imunológico.Neurocientistas da Universidade Maryland, nos EUA, divulgaram, no ano passado, pesquisa que atesta que a risada é um instinto de sobrevivência para alguns animais e seres humanos, que convivem em sociedade.
No campo da reabilitação, há um enorme incentivo à terapia do riso, que tem sido amplamente adotada nas últimas duas décadas. Segundo pesquisadores, como a psicobióloga Silvia Helena Cardoso, o riso é uma ferramenta de comunicação importante inata ao ser humano. Entre as suas diversas funções, está a de auxiliar a produção de células que previnem infecções e de aumentar a produção de endorfinas, que diminui a dor.| DEIXE O BOM HUMOR ENTRAR NA SUA VIDA • Exercite o lúdico, por meio das brincadeiras, das práticas esportivas, do hábito de cantar • Não tenha medo de rir das próprias gafes • Não tenha vergonha de rir sozinho ou acompanhado • Assista comédias, de vez em quando, para liberar o bom humor • Mantenha contato com crianças e pessoas alegres, pois essa energia é contagiante • Se possível, tenha um animal de estimação, que proporciona o bem-estar e momentos prazerosos FONTE: PSICÓLOGO ESDRAS GUERREIRO VASCONCELLOS E NEUROLINGÜISTA IVONE ENGELMANN |
O psicólogo Esdras Guerreiro Vasconcellos, professor de pós-graduação em Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo (USP) e em Psicologia Social e do Trabalho da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), explica que podemos dividir o riso em dois tipos.
Risada afetiva
O primeiro tipo de riso é relacionado à afetividade. “Nesse caso, é uma expressão genuína de alegria desencadeada por nosso sistema nervoso, originada pelo centro imagético, que fica no chamado sistema límbico, localizado embaixo do córtex cerebral”, explica Vasconcellos.
O primeiro tipo de riso é relacionado à afetividade. “Nesse caso, é uma expressão genuína de alegria desencadeada por nosso sistema nervoso, originada pelo centro imagético, que fica no chamado sistema límbico, localizado embaixo do córtex cerebral”, explica Vasconcellos.
Isso quer dizer que geralmente é estimulado por meio da memória afetiva e não exige compreensão racional. “São lembranças que vêm como um flash de situações que nos geraram risadas anteriormente, que muitas vezes são difíceis de controlar”. Como exemplo, Vasconcellos cita os bastidores das novelas, em que vemos os atores rindo dos seus próprios erros espontaneamente. Nesse momento, são liberadas endorfinas, hormônios naturais de nosso organismo, responsáveis pela sensação de bem-estar e alívio da dor.
Compreensão lógica Mas o riso tem uma segunda faceta, que pode ser mais aprimorada, quando é originado em nosso córtex cerebral, que está relacionado à compreensão lógica. O principal exemplo, nessa situação, é a reação às piadas. “A pessoa ri, porque entendeu a lógica absurda da mensagem”, diz o psicólogo. Segundo Vasconcellos, geralmente quem usa muitos provérbios e citações no cotidiano tem facilidade para compreender as piadas. “Isso estimula a criação de ramificações neurológicas”, explica.
O limite é a gargalhada
No aspecto físico, o riso mexe com todos os músculos da face e de outras partes do nosso corpo. Provoca contrações que atingem a parede torácica, o abdome e o diafragma e aumentam o fluxo sanguíneo nos órgãos. Ao acelerar a freqüência cardíaca, proporciona a dilatação das artérias, levando também à queda de pressão arterial.
É um verdadeiro exercício, que favorece a descontração e o relaxamento. O limite dessa zona de bem-estar é a gargalhada contínua, que é uma sensação de prazer próxima ao orgasmo, segundo o psicólogo Vasconcellos. “Isso ocorre porque, ao chegar à gargalhada, a freqüência cardíaca aumenta em 45%, podendo provocar arritmias (descompasso do batimento cardíaco). Estudos comprovam que nessa fase o ar pode sair dos pulmões a 110 km/hora”, explica o especialista.
Em casos extremos, caso se prolongue essa situação, pode provocar desmaios. “É o chamado estado de tetania, em que há uma hiperoxigenação, causando o enrijecimento da musculatura”, diz. Por isso, o sinal de alerta é dado, quando o riso começa a causar dor, que pode irradiar da face para o peito, a barriga, fazendo até com que urinemos sem querer e tenhamos diarréia. E cabe ao comando no córtex cerebral estabelecer “que está na hora de parar”.
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