segunda-feira, 18 de julho de 2011

Atenção à endometriose desde cedo

A doença pode surgir da primeira à última menstruação. As pacientes, em média, levam sete anos para receber o diagnóstico. Por isso, reconhecer os sintomas já na adolescência é essencial para ter mais qualidade de vida.



Tensão pré-menstrual, sangramento e cólicas fazem parte da rotina mensal das mulheres. Do início da puberdade ao climatério, elas convivem com esses e outros fatores ligados às suas funções fisiológicas e reprodutivas. Não bastasse todo o cuidado que um ciclo menstrual acarreta, uma importante parcela das mulheres tem sintomas mais intensos, tão fortes que diminuem drasticamente a qualidade de vida.


Esse grupo, ciente ou não, pode ter endometriose. A doença acontece quando o tecido que reveste a cavidade uterina, o endométrio, se implanta fora do útero. Essa anomalia pode ocorrer superficialmente na cavidade peritonial, nos ovários ou mais profundamente, invadindo órgãos como o intestino e a bexiga. “É bastante frequente hoje. Atinge entre 10% e 15% das mulheres em idade reprodutiva”, alerta Mauricio Simões Abrão, professor associado do departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e presidente da Sociedade Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva (SBE). Abrão trabalha com a patologia desde 1988, quando liderou a criação do Ambulatório de Endometriose da Clínica Ginecológica do Hospital das Clínicas da USP. No centro, ele e outros profissionais estudam questões genéticas e imunológicas ligadas à doença e no desenvolvimento de novas técnicas para o diagnóstico precoce e não invasivo. Confira a entrevista concedida pelo médico à VivaSaúde:

Qual é a importância do diagnóstico precoce da doença? 
A endometriose é uma das principais causas de dor pélvica e de infertilidade na mulher. O diagnóstico precoce é fundamental para uma melhor perspectiva terapêutica. A endometriose é evolutiva. Por isso, quanto antes a identificarmos, menor será o número de casos avançados. Estudos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da USP de Ribeirão Preto mostram que o tempo entre o início dos sintomas e a confirmação da patologia é de 7 anos. Dois fatores são responsáveis por tanta demora. O primeiro é resultado da falta de acompanhamento especializado. Isso quer dizer que a paciente passa anos sem procurar o médico, ainda que seu corpo lhe dê sinais periódicos de que algo está errado. Além disso, o médico pode demorar a pensar na possibilidade das queixas relatadas pelas mulheres indicarem a existência da endometriose. Por esses motivos, fazemos campanhas e ações de esclarecimento sobre a etiologia da doença para especialistas e leigos.


O que a doença implica na vida da paciente?
Fica fácil entender como ela prejudica diretamente a qualidade de vida da paciente e sua capacidade de reprodução se entendermos quais são seus sintomas. Os principais sinais são: cólicas menstruais severas; dor durante a relação sexual; dificuldade para evacuar ou urinar durante os períodos de menstruação; e dificuldade para engravidar. Esses sintomas podem coexistir ou, eventualmente, a mulher pode apresentar um ou mais de forma mais intensa. As cólicas, por exemplo, podem ser tão fortes que se tornam incapacitantes, impedindo que a paciente reúna condições mínimas para atividades do dia a dia.


Como uma mulher desenvolve a endometriose?
Existem inúmeras teorias sobre suas causas. A primeira mais consistente surgiu em 1927, que ligava a doença à menstruação retrógada. Quando uma mulher menstrua, ela elimina o endométrio pelo sangue. O tecido, então, pode refluir pelas tubas uterinas, antigamente chamadas de trompas, levando, assim, o endométrio à cavidade abdominal. Outras teses associaram a patologia a variações nos cromossomos 10 e 17. Atualmente, uma linha bastante aceita se refere a alterações do sistema imunológico da mulher. Outras doenças que atacam o mecanismo de defesa do corpo também têm relação com o desenvolvimento da endometriose. Por exemplo, 30% desse grupo de pacientes têm problemas na tireoide.

A endometriose acontece quando o tecido (endométrio) que reveste a cavidade uterina se implanta fora do útero
De que forma o médico chega ao diagnóstico? A análise de certeza é dada pela laparoscopia. Esse é um procedimento de certa forma invasivo, pois acarreta pequenos cortes por onde se inserem duas pinças e uma câmera (óptica) que é conectada a um sistema de monitor, permitindo que o especialista observe a existência da endometriose por vídeo. Essas e outras incisões já permitem tratar alguns casos pela inserção de caltérios, um instrumento que produz uma corrente elétrica e é usado para ressecar os focos.

Há opção de exames mais brandos? 
Os sistemas não invasivos são a principal novidade de diagnóstico. Há, hoje, um recurso criado no Brasil para a análise de endometriose por ultrassom. Pessoas do mundo todo vêm ao País para aprender a técnica. O tratamento cirúrgico melhora a cada dia. Os meios para se fazer a laparoscopia evoluem no mesmo sentido. Os medicamentos estão sendo testados na tentativa de controlar a doença de forma específica. Mas ainda não temos uma fórmula ideal para tratar definitivamente a doença.

Eles substituem a laparoscopia? 
Esses novos métodos podem não ser tão precisos quanto o exame mais tradicional, mas são fortemente permissivos para indicar a utilização e o tipo da laparoscopia.

E como é o tratamento? 
As abordagens variam, mas a partir do momento que identificamos a doença é preciso tratá-la imediatamente. É possível tratar suas consequências, visando a eliminar e controlar as lesões já existentes. É necessário, também, aplicar terapias de causa, que são, na verdade, meios de prevenção. A primeira linha de cuidados vai variar de acordo com o tipo da patologia. Em geral, o tratamento é cirúrgico. Pela laparoscopia, o cirurgião remove seus focos. Em seguida, é recomendado um reforço terapêutico hormonal. Se a paciente desejar engravidar, é indicado o tratamento de acordo com o local acometido e quais fatores associados de infertilidade ela pode apresentar. Para casos de obstrução tubária, o processo mais apropriado é a fertilização in vitro. Entre as mulheres ainda jovens e com a anatomia uterina preservada é possível indicar simplesmente a indução de circulação ou a fazer uma inseminação artificial. Já o tratamento da causa é fundamental. É preciso entender que cuidar da endometriose não se resume apenas à luta contra as lesões do órgão. Significa, também, olhar para seu estado emocional, estimular atividades físicas, psicoterapia, hobbies, minimizar fatores de estresse. Médico e paciente precisam entender que imunidade também está envolvida no desenvolvimento da doença.

Qual é o seu conselho para a paciente? 
É preciso ter respeito e seriedade diante da doença. Não adianta achar que quando tiver um problema como a endometriose é só ir até o consultório que o especialista irá remover a lesão com uma cirurgia. Se a mulher tiver a consciência de que ela é uma parceira do médico no tratamento, passará a cuidar melhor de sua saúde, praticando atividades físicas, mantendo uma dieta saudável e um contato periódico com seu médico. Tudo isso considerado, é possível garantir uma boa saúde e qualidade de vida para a paciente.

Conheça os sintomas da endometriose 
Como a maioria das doenças, o diagnóstico precoce é essencial para o sucesso do tratamento. Se você tem um ou mais desses sinais, procure o médico rapidamente.
ADOLESCENTES
MULHERES ADULTAS
● Cólicas menstruais intensas.
● Sangramento abundante ou irregular durante o período menstrual.
● Dores nas relações sexuais, quando o pênis encosta no fundo da vagina.
● Náuseas, diarreia, prisão de ventre, dores abdominais ou alterações urinárias durante as menstruações.
● Dismenorreia: muita cólica durante o período menstrual.
● Dor durante a relação sexual.
● Dificuldade de engravidar, a infertilidade atinge cerca de 40% das pacientes.
● Cólicas fora do período menstrual.
● Alterações intestinais ou urinárias durante o fluxo menstrual.
Fonte: Sociedade Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva (SBE) Produção: Janaina Resende


Via: http://revistavivasaude.uol.com.br/saude-nutricao/91/artigo189739-2.asp



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