
Unidade
de Produção de Aedes Transgênico (UPAT) da empresa pública Moscamed
Brasil. A fábrica produzirá mosquito transgênico para combate da dengue.
| Foto: Erasmo Salomão
O Brasil dará início à produção em larga escala de mosquito
transgênico que será utilizado para o combate à dengue. Neste sábado
(7), o ministro da Saúde, Alexandre Padilha,
participa na Bahia da inauguração da fábrica com maior capacidade de
produção mundial do mosquito da dengue estéril. A unidade funcionará em
Juazeiro, na sede da empresa pública Moscamed, especializada na produção de insetos transgênicos para controle biológico de pragas.
Com 720 m2 de área, a unidade fabril vai confeccionar em larga escala do macho do Aedes Aegypt geneticamente modificado. A produção do mosquito transgênico será supervisionada pelo Ministério da Saúde.
A intenção do governo federal é utilizar tecnologia inovadora criada
nacionalmente como opção de controle da dengue em todo o Brasil. “Nós
incentivamos o desenvolvimento deste projeto e vamos monitorar de perto,
pois promete ser uma alternativa efetiva de controle da principal
epidemia urbana do país”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre
Padilha, que esteve presente no evento, ao lado do governador da Bahia,
Jacques Wagner, e de outras autoridades públicas.
A unidade fabril é um braço da empresa pública Moscamed, biofábrica criada em 2005 e subsidiada pelo Ministério da Agricultura e pelo governo do estado da Bahia,
especializada na produção de insetos transgênicos para controle
biológico de pragas. Sua capacidade máxima de produção é 4 milhões de
machos do Aedes Aegypt estéreis por semana. Estes mosquitos, liberados
no ambiente em quantidade duas vezes maior do que os mosquitos
não-estéreis, vão atrair as fêmeas para cópula, mas sua prole não será
capaz de atingir a fase adulta, o que deve reduzir a população de Aedes a
tal nível que controle a transmissão da dengue. Inicialmente, os
insetos serão liberados no município baiano de Jacobina, com 79 mil
habitantes, que apresentou 1.647 casos de dengue e dois óbitos pela
doença só neste primeiro semestre de 2012. A ação é inédita
mundialmente: é a maior liberação de insetos transgênicos de controle
urbano do mosquito da dengue. O governo de estado da Bahia está
investindo 1,7 milhões no projeto.
Já há resultado bem sucedido de projeto piloto realizado entre 2011 e
2012 em dois bairros de Juazeiro (BA) – Mandacaru e Itaberaba –, ambos
com cerca de 3 mil habitantes, e alto índice de proliferação do
mosquito. Com o emprego desta técnica, houve redução de 90% população do
mosquito em seis meses nestes distritos. Com a experiência em Jacobina,
uma cidade de médio porte, será possível mensurar a redução da doença
na população. O projeto em Jacobina também vai verificar a melhor
maneira de adaptar o mosquito ao ambiente, como transporte e logística
adequados. Inicialmente, será transportada a pupa (fase do inseto) em
containers, e não o mosquito adulto, pois acredita-se que este morreria
após algumas horas de viagem.
A partir dos resultados, o governo poderá expandir a estratégia para
todo o país e, dentro de alguns anos, incorporá-la ao Sistema Único de
Saúde (SUS) como um dos mecanismos de combate à doença. Os estudos para
mensurar o impacto em termos de redução da dengue levam pelo menos 5
anos, de acordo com o National Institute of Health
(órgão equivalente ao Ministério da Saúde americano). Para que a
tecnologia seja incorporado ao SUS e reproduzida comercialmente por
empresas privadas, deve ter a aprovação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), do Ministério da Saúde, da Anvisa, do Ibama e do Ministério da Agricultura.
“Para combater a dengue, é necessário a aliar várias estratégias
conjuntamente: além do controle do vetor, é importante o investimento na
vacina da dengue e o tratamento de casos graves”, ressaltou Padilha.
PESQUISA – O ministério tem acompanhado a pesquisa
com o Aedes Aegypt transgênico desde o seu início, em 2010, que começou
com a adaptação do mosquito em laboratório da Universidade de São Paulo (USP). Conhecido como PAT (Projeto Aedes Transgênico), o estudo foi desenvolvido em parceria com a empresa britânica Oxitec,
que desenvolveu a primeira linhagem do inseto transgênico. Esta teve
de, posteriormente, ser adaptada ao ambiente nacional. Em 2011, a
Moscamed entrou na parceria e deu um salto quantitativo na produção do
mosquito, com 550 mil mosquitos.
A Moscamed foi criada em 2005, e ganhou notoriedade depois de um case
bem sucedido de controle biológico no Brasil da chamada
“mosca-do-mediterrâneo”. Esta praga, conhecida como “bicho da goiaba”,
também presente em outras frutas, inviabilizam a comercialização delas,
causando prejuízos da ordem de US$ 120 milhões por ano para a
fruticultura brasileira e mais de US$ 2 bilhões para a fruticultura
mundial. Uilizando a “Técnica do Inseto Estéril”, a Moscamed conseguiu
reduzir a população deste bicho a níveis abaixo do dano econômico, e
ampliou o acesso do Brasil ao mercado internacional de frutas,
principalmente para os Estados Unidos, Japão e União Européia. A
organização foi escolhida pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para ser a primeira Biofábrica do mundo a utilizar a tecnologia de raios-x para a esterilização de insetos. É reconhecida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) como entidade de pesquisa.
EPIDEMIA – No primeiro semestre de 2012 (janeiro a
junho), já foram registrados 431.194 casos de dengue em todo o País. A
Região Sudeste tem o maior número de casos (182.895 casos; 42,4%),
seguida da Região Nordeste (168.935 casos; 39,2%), Centro-Oeste (43.228
casos; 10,0%); Norte (31.927 casos; 7,4%), e Sul (4.209 casos; 1,0%). A
Bahia apresentou mais de 41 mil casos de dengue em 2012. É o terceiro
estado com maior número de notificações, atrás do Rio de Janeiro e
Ceará.
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